Por que resistimos tanto à mudança?

Eu sempre amei mudanças.

Quando tudo permanece igual por tempo demais, sinto que a vida perde cor, ritmo e curiosidade. Fico entediada. As coisas parecem monótonas, quase sem vida. Então, por que não mudar um pouco? Por que não spice things up?

Talvez por isso eu lide tão bem com mudanças. Não apenas com aquelas que escolhi, mas também com as que chegaram sem aviso — e que, muitas vezes, não eram nada fáceis. A vida, desde cedo, me ensinou a adaptar. E adaptação, quando se torna familiar, deixa de ser ameaça e vira habilidade.

Escrevo esse texto, confesso, numa tentativa talvez imperfeita de compreender por que tantas pessoas resistem tanto à mudança — e, sobretudo, por que resistem a promovê-la. No meu círculo mais próximo, poucas pessoas lidam bem com transformações. Curiosamente, as que lidam melhor são justamente aquelas que a vida obrigou a mudar cedo.

Essas pessoas têm algo em comum: quando a vida fica estática demais, elas adoecem de tédio.

Para outras, no entanto, basta uma pequena viagem para “dar uma agitada”. Qualquer mudança que exija reavaliação mais profunda de hábitos, de crenças, de estrutura, vira uma grande celeuma. Especialmente quando mudar significa questionar tradições familiares.

E aqui entra um ponto delicado.

Tradições familiares são importantes. Elas criam coesão, sustentam valores, oferecem pertencimento. Mas é preciso lembrar, mesmo que pareça óbvio, que uma família é composta por indivíduos. Pessoas diferentes, com tempos diferentes, prioridades diferentes, visões diferentes de vida.

O que acontece quando um indivíduo, dentro desse sistema, percebe que determinada tradição já não faz sentido para si e propõe uma mudança? E o que acontece quando o restante da família se opõe veementemente, acreditando que romper essa tradição ameaça toda a estrutura?

Quem está certo? Quem está errado?

Talvez essa pergunta não leve a lugar algum. Porque, na maioria das vezes, não se trata de certo ou errado, mas de forças em tensão. Dois lados de uma mesma moeda.

Agora imagine que esse indivíduo “rebelde” comece a encontrar apoio. A mudança ganha força. E então, talvez seja o momento de olhar a situação com mais lucidez: será que essa tradição ainda sustenta a família — ou apenas a mantém presa a um passado que já não corresponde ao presente?

Os anos passam. As pessoas mudam. O contexto muda. O mundo muda. O que realmente importa dentro de uma família? O que merece ser preservado? E o que pode — ou precisa — ser atualizado?

Acredito que toda mudança exige pausa e análise. Um olhar honesto para o contexto: o que mudou? O que esse novo cenário pede de mim? O que preciso aprender, desenvolver, rever?

Talvez as pessoas não resistam à mudança por medo, mas por conforto. É confortável permanecer onde estamos, do jeito que estamos. Qualquer transformação exige uma nova leitura de nós mesmos: do nosso modo de pensar, de agir, de nos posicionar no mundo.

Em cenários mais extremos — como a morte de alguém que amamos — essa exigência se aprofunda ainda mais. Já vivi isso. Há mudanças que nos obrigam a revisar crenças inteiras para continuar vivendo. Outras exigem mudanças práticas: de casa, de rotina, de identidade.

Por que não aceitar, de uma vez por todas, que a mudança é a única constante da vida?

Talvez tudo fique mais leve quando vivemos preparados para o fato de que tudo pode mudar da noite para o dia. O que fica, então? O que levamos conosco? Apenas aquilo que somos.

É aí que, para mim, está o foco. Mais do que tentar controlar formas externas, é essencial construir e lapidar quem somos em essência. Sonhos importam, claro. Caminhos importam. Mas, em algum momento, a vida pode nos desviar — e o que resta é o que carregamos por dentro.

Aqui estou eu, mal começado o ano, tendo que mudar de apartamento de forma inesperada (embora não totalmente inesperada, já que essa intenção existia). A diferença é que aconteceu num contexto para o qual eu não estava preparada, ao menos do ponto de vista prático. Tudo precisa ser reorganizado.

E aqui estou eu, também, dando um novo rumo à minha vida profissional. Um desvio de rota que não estava nos planos, mas que hoje reconheço como necessário. Minhas prioridades mudaram. E elas pedem outra direção.

Posso dizer, com sinceridade, que apesar de tudo estar acontecendo de forma muito diferente do que planejei, eu não poderia estar mais em paz. E até mais feliz.

Talvez porque, no fundo, eu já tenha aprendido: resistir cansa mais do que mudar.

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